Voto e conhecimento
Embora as pesquisas já se tenham tornado, faz tempo, elemento inseparável da vida política brasileira, ainda são muitas as pessoas que têm dificuldades em lidar com elas. Mesmo os jornalistas e os políticos profissionais, que estão sempre às voltas com elas, as enfrentam.
São problemas que aumentam em épocas eleitorais, quando as emoções e paixões afloram. As dúvidas e suspeições que cercam as pesquisas ficam mais frequentes, a respeito da representatividade das amostras, da isenção dos institutos, do modo como são formulados e aplicados os questionários, de até que ponto a publicação de resultados interfere na eleição. A cada vez que uma nova pesquisa é divulgada, esses questionamentos reaparecem, dificultando ainda mais sua compreensão.
Exemplo de uma dimensão que nem todo mundo entende é a influência do nível de conhecimento dos candidatos nas intenções de voto. Para os pesquisadores, é algo fundamental, enquanto que a maioria da população raramente lhe dá atenção.
A responsabilidade disso é, em grande parte, dos próprios institutos e dos veículos de comunicação. A cobertura jornalística de uma pesquisa costuma centrar-se nos resultados agregados — os que se referem ao conjunto da amostra — sem alertar o leitor ou o espectador sobre a necessidade de sempre os considerar levando em conta quão conhecidos são os candidatos. Muitas vezes, essa informação é apresentada com pequeno destaque ou nem sequer é divulgada.
Em uma sociedade como a nossa, os problemas que daí decorrem são grandes. Fizemos, ainda nos anos 1930, a opção pela obrigatoriedade do voto, tornando compulsória a participação mesmo de quem não tem interesse pela política e as disputas eleitorais. A isso se somam nossas imensas lacunas educacionais, que deixam contingentes inteiros do eleitorado com pequenas condições de consumir informação.
Alguns números: perto de 50% de nossos eleitores não têm nenhum ou têm interesse muito baixo por política; menos de 35% acompanham o noticiário sobre o tema com alguma regularidade; 30% das pessoas não votariam caso não fossem obrigadas. Se quiséssemos, outros poderiam ser lembrados, todos pintando o mesmo quadro.
Mas não é preciso ir longe, basta olhar para um dos aspectos mais óbvios das eleições deste ano: a candidatura de Dilma. Faz mais de dois anos que ela está diariamente em todos os jornais, que, quase com a mesma frequência, aparece na televisão e no rádio. A ministra já deu centenas de entrevistas, foi a talk shows e programas de auditório, em emissoras de todo o Brasil. O político mais popular de nossa história, seu patrono, deve ter mencionado seu nome milhões de vezes, saiu com ela em incontáveis fotografias, subiu a seu lado em centenas (ou serão milhares?) de palanques.
Pois bem, cerca de 50% da população brasileira continua a não conhecê-la e a não saber que ela é a candidata de Lula. E isso agora, quando falta pouco mais de seis meses para a eleição. Nunca se viu, na história deste país, um esforço igual para tornar conhecida uma pessoa. Mas somente a metade da população foi alcançada.
Quando se pergunta a quem não a conhece como vai votar, de uma coisa podemos estar certos: muito dificilmente a pessoa responderá que nela. Se conhecer algum outro nome na lista, é provável que o assinale. Se não (ou se tiver uma impressão negativa de todos), optará por dizer “não sei”.
Para um lugar da importância da Presidência, o eleitor brasileiro simplesmente não vota (e não diz que votaria) em quem não conhece. É possível que o faça quando escolhe deputados e vereadores, pois costuma ficar confuso perante centenas de nomes e tende a seguir a orientação de alguém em quem confia (parente, pastor, padre, etc.). Mas não para presidente.
Hoje, a metade do eleitorado que não conhece Dilma fica com Serra ou Ciro, pois Marina é ainda menos conhecida. Ou então diz que não sabe, por não estar à vontade com ambos. Há, portanto, um voto potencial em Dilma engrossando as intenções de voto nos candidatos do PSDB e do PSB. Não sabemos seu tamanho, mas é quase certo que existe. Aliás, é o que sugerem as pesquisas recentes, que indicam que o governador cai enquanto ela sobe. A recíproca pode ser verdadeira, mas em escala muitíssimo menor, dado o fato de Serra ser amplamente conhecido.
Enquanto não se ampliar o conhecimento a respeito de Dilma (e a associação entre ela e Lula), os resultados agregados das pesquisas dizem pouco. Sua evolução (e o que acontece com as intenções de voto à medida que aumentar) é a questão mais relevante das eleições deste ano. |