A esperteza do momento
As previsões otimistas sobre a economia da China confirmaram-se: o gigante do Oriente cresceu 8,7% em 2009, recuo suave em relação aos índices de dois dígitos nos anos anteriores à crise planetária. A China toma oficialmente o lugar que o Brasil desejava e dizia guardado para si: o de primeiro país a deixar para trás a turbulência. E a locomotiva puxa os vagões, entre eles o nosso. De dedos cruzados, a humanidade torce para a máquina chinesa não soluçar.
Há entre nós um mecanismo curioso, estimulado pelas autoridades e docemente propagado pela elite. “Comparar o Brasil com a China não vale”, dadas as diferenças entre os dois países. Seria razoável, se fosse uma regra fixa. Mas quando o governo quer falar bem de si mesmo no enfrentamento da crise compara-nos, por exemplo, à Rússia, que amargou recessão brava em 2009. E também à Europa, aos Estados Unidos e ao Japão, que não sofreram tanto quanto os russos, mas vêm de um ano bem ruim.
Não deixaria de ser válido se o governo do PT aceitasse então comparações com europeus, americanos e japoneses em temas como educação, saúde, outros serviços públicos e infraestrutura. Ou com os russos em desenvolvimento científico. Mas aí não vale. Como fazer paralelos nessas questões entre o Brasil, uma nação apenas emergente, e as áreas mais desenvolvidas do globo? Seria injusto.
Eis um método. Como transformar o Brasil no melhor país do mundo, ao menos na esfera das percepções? Como criar aqui um caudal de autoestima? É fácil. Crescemos bem mais do que os russos em 2009, nossos direitos trabalhistas dão de dez nos dos chineses, nosso dinamismo econômico deixa o Japão na poeira e os estrangeiros, inclusive vindos dos países mais pobres, são muito mais bem tratados aqui do que na Europa. E, apesar de a segurança pública não ir bem, esse é um problema de todos os países com graves desigualdades sociais.
Neste ponto você já percebeu que o método serve também para dizer que o Brasil é uma droga, quando for politicamente adequado. Relativamente a outros países, há comparações disponíveis para atestar que nossa saúde pública é tosca, nossa educação pública idem, nosso crescimento é medíocre, nossos índices de violência urbana são de espantar, a produtividade das nossas universidades é baixa e não temos capacidade militar real de dissuasão.
Em qualquer item será possível encontrar um país que vai bem adiante do Brasil. Bem como algum que vai lá atrás. É errado então comparar? Não. As comparações são boas, servem como parâmetros para ver se estamos fazendo o melhor possível. Deveriam estar aí para estimular a superação dos limites, ajudar a avançar, para cultivar a insatisfação com nossas fraquezas, debilidades.
Deveriam. Infelizmente, o papel reservado a elas é outro. São, alternadamente, apenas pretexto para condescendência ou para a autoflagelação. Uma ou outra, sempre a que convier à esperteza do momento. Só depende se o esperto está no governo ou na oposição. |