Ainda temos muito que aprender

Sempre que alguém de outra nacionalidade deixa transparecer a ideia preconcebida sobre como os brasileiros lidam com os costumes morais e até com sua própria sexualidade eu acho graça.
É difícil explicar que talvez sejamos um dos povos mais caretas do mundo. O carnaval, as bandas que exibem bailarinas sensuais e as mulheres lindas em praias paradisíacas contribuem para essa percepção errada.
O fato é que quando o senso de moral e de bons costumes do brasileiro são colocados à prova ele costuma mostrar-se mais conservador que uma carola do século XV. Isso sem falar nas demonstrações explícitas de intolerância.
Uma das provas mais recentes foi o falatório em torno da mini-saia da estudante da Uniban e o desfecho da história.
Quem não se lembra também de uns policiais que protagonizaram a patética cena de proibir algumas banhistas de fazerem topless no Rio de Janeiro?
Neste exato momento os portugueses estão se preparando para encarar um tema difícil e que mostra o quanto, de certa forma, falta-nos maturidade para debater assuntos realmente sérios.
Todos os dias os jornais portugueses trazem páginas e mais páginas com análises, opiniões favoráveis e contrárias ao casamento de pessoas do mesmo sexo.
Esse foi um tema trazido para debate público durante as recentes eleições e, como promessa de campanha, o governo avança na proposta de legalizar o casamento gay.
Deverá ser convocado um referendo? Poderão os casais gays adotar legalmente uma criança?
Poderá somente a união civil registrada resolver as questões legais que envolvem a união de duas pessoas do mesmo sexo? Qual a posição religiosa sobre o assunto?
Todas essas perguntas vêm sendo apresentadas aos portugueses com o objetivo de ampliar o debate e chegar a uma decisão que agrade não a maioria, mas que contemple todos com os mesmos direitos e deveres.
Se aos olhos da lei somos todos iguais e pagamos os mesmos impostos, por que seriamos diferentes perante a instituição do casamento?
Já o tema da adoção por casais homossexuais tem sido encarado com maior cautela.
Há um impasse: se o casamento é igual para todos e pressupõe a adoção como forma de constituir uma família, os casais gays não poderiam ser discriminados caso decidissem adotar uma criança.
Por outro lado, quando fala-se em direitos, há que se considerar o direito da criança de crescer ou não em um lar onde há um pai e uma mãe.
Portugal não está propriamente entre os países mais liberais da Europa mas está encarando o debate, por mais difícil que ele seja.
Como será quando chegar a nossa vez de debater tais questões?
O jornalista Daniel Escobar mora em Lisboa. É o maquinista do blog Comboio Lisboa, que conduz com a cumplicidade da jornalista Ieda Barros. |